DESCUBRA PAIRA: o sussurro eletrônico que vem das brumas de Belo Horizonte
A banda que desafia o tempo e a forma com um shoegaze eletrônico em português que mais evoca do que explica.
Enquanto a música alternativa brasileira parece cada vez mais inquieta em se expandir e se desdobrar em novas texturas, a banda Paira escolheu um caminho inverso: o da suspensão. Em vez de buscar o impacto imediato, suas composições sussurram. Ao invés de se firmar no chão, Paira prefere flutuar e, no processo, convida o ouvinte a se perder junto.
Formado por Clara Borges e André Pádua, o projeto surgiu em Belo Horizonte, no início da década de 2020, no rastro do silêncio pandêmico e das trocas criativas intensificadas por esse tempo instável. Talvez por isso, Paira soe como uma tradução sonora do que foi aquele período: íntimo, rarefeito, muitas vezes inominável. Em 2024, após um período de maturação cuidadosa, o duo lançou seu primeiro trabalho oficial, o EP01, pela Balaclava Records, um disco breve, mas que já entrega muito do universo que a banda pretende ocupar.
A Paira surgiu da vontade de explorar e combinar gêneros diferentes para tentar criar algo novo e empolgante a partir disso.
– Clara Borges sobre a origem da sonoridade da Paira.
Logo de início, Paira se afasta do formato tradicional de banda de rock. Aqui, camadas eletrônicas se sobrepõem a guitarras fluidas, vozes submersas, texturas que se desfazem como neblina ao sol. A estética remete a uma zona onde o rock, indie, eletrônica, psicodélico e dream pop encontra o glitch, o shoegaze dissolve no silêncio, e as influências, que vão de Grouper a Radiohead, aparecem menos como referências sonoras e mais como estados de espírito.
Essa lista de referências e gêneros pode parecer meio absurda, lendo assim. Mas é uma sonoridade que eu e a Clara vínhamos imaginando e construindo há anos, desde um pouco antes da pandemia pra ser exato, antes de ficarmos próximos. Há dois anos começamos a banda e foi ali que a coisa começou a tomar a cara que tem agora.
– André Pádua sobre a construção do som e o início do projeto.
O EP começa com “Música Lenta”, ironicamente a faixa mais pulsante do disco. Uma batida acelerada quase drum’n’bass é envolta por guitarras lavadas e vocais enevoados, criando um contraste interessante entre movimento e introspecção. Em seguida, “O Fio” (com participação de Adieu) mergulha no que Paira faz de melhor: criar canções que soam como memórias borradas, sensações em estado líquido. As faixas seguintes, “Leve”, “Como um Rio” e “19”, funcionam como variações desse mesmo universo. Não há refrões grudentos ou clímax esperados: tudo é diluído, etéreo, construído para ser sentido mais do que entendido.
Um dos pontos mais potentes da banda está justamente na maneira como usam a língua portuguesa de forma sensorial. As palavras são poucas, quase sempre soterradas por efeitos, mas carregam um poder imagético raro. Falam de água, distância, flutuação. Não são canções para cantar junto, mas para habitar por dentro. Há algo de cinematográfico nesse som, mas de um cinema contemplativo, que prefere planos longos a cortes rápidos.
Em termos de contexto, Paira também ocupa um espaço interessante. Ao mesmo tempo em que conversa com a nova leva de artistas brasileiros voltados à introspecção e à produção caseira, seu som não se rende a estéticas nostálgicas ou revivalismos óbvios. É um projeto com identidade estética forte, uma presença discreta e um tipo de beleza que se revela na escuta atenta. A escolha da Balaclava Records como casa do EP01 não é coincidência: o selo já se firmou como um dos grandes curadores da cena indie nacional contemporânea, e Paira parece ter chegado para somar ao catálogo com uma proposta delicada, mas marcante.
No fim, Paira é uma banda que não exige nada do ouvinte, apenas disponibilidade. É música para quem está disposto a desacelerar, escutar entre os vãos e mergulhar num tipo de paisagem onde o som mais alto é o que ressoa por dentro.



